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O salário mínimo real do Brasil subiu 188% desde o início do programa de estabilização do Plano Real em 1994. A produtividade do trabalho no mesmo período subiu aproximadamente 30%. Essa proporção de seis para um, apresentada pelo pesquisador do BTG Pactual e economista do FGV IBRE Samuel Pessôa na Folha Mercado, é o único número que explica por que a maior economia da América Latina está presa com uma taxa de política monetária de 15%, dívida se aproximando de 95% do PIB, e nenhum caminho óbvio para reduzir qualquer uma das duas.
A Desconexão Completa
O conjunto de dados mais longo de Pessôa reforça o ponto. Em valores de 1951, o salário mínimo brasileiro alcançou R$ 378 em 2024 — um aumento cumulativo de 297%. A produtividade do trabalho no mesmo período avançou 204%, incorporando estimativas revisadas dos economistas Bacha, Tombolo e Versiani. Os Estados Unidos conseguiram 355% de crescimento de produtividade no mesmo período. O Brasil tem se pagado mais enquanto produz comparativamente menos — e a lacuna se ampliou drasticamente desde o início dos anos 2000, quando governos sucessivos incorporaram indexação salarial acima da inflação na lei.
Um leitor questionou Pessôa observando que o salário mínimo havia caído aproximadamente 50% dos seus picos dos anos 1950-60 sob Vargas e Goulart até seu ponto de partida do Plano Real. Pessôa reconheceu o declínio, mas argumentou que aqueles níveis salariais anteriores se mostraram insustentáveis, produzindo inflação crônica e erosão contínua dos salários reais. A política de valorização pós-1994 tem sido mais durável — mas durabilidade e sustentabilidade não são a mesma coisa.
R$ 210 Bilhões e Contando
O salário mínimo de 2026 subiu para R$ 1.621 em 1º de janeiro — um ajuste de 6,79% calculado a partir da inflação do INPC mais crescimento do PIB, limitado a 2,5% de ganho real sob as regras do arcabouço fiscal introduzidas no final de 2024. Esse único número repercute em 59,9 milhões de brasileiros: trabalhadores formais, aposentados do INSS, beneficiários do BPC, beneficiários do seguro-desemprego. Cada real adicionado ao salário mínimo aumenta mecanicamente o gasto federal em programas sociais indexados.
O efeito cumulativo sob o terceiro mandato de Lula é uma estimativa de R$ 210 bilhões em gastos primários adicionais para 2026, impulsionado pela valorização do salário mínimo combinada com a re-indexação dos gastos em saúde e educação à arrecadação. A dívida pública está projetada para subir 10 pontos percentuais do PIB durante esta administração — de 87,3% em 2024 para aproximadamente 95% em 2026, segundo as últimas perspectivas da Deloitte para o país. Para uma economia de mercado emergente, isso é excepcional; Chile e Peru carregam índices de dívida menos da metade do brasileiro.
A Armadilha da Selic
O Banco Central manteve a Selic em 15% pela quinta reunião consecutiva em janeiro, com expectativas de inflação situadas em 4,0% para 2026 e 3,8% para 2027 — ambas acima da meta de 3%. O crescimento salarial permanece forte. A política fiscal permanece frouxa. Ambos os fatores mantêm o banco central preso.
O problema é estrutural, não cíclico. Quase metade da dívida doméstica do Brasil — 48,3% — está indexada diretamente à Selic. Cada ponto base de aperto mecanicamente aumenta os custos de serviço da dívida do governo, que já funcionam em aproximadamente R$ 982 bilhões anuais, ou 7,8% do PIB. O governo está simultaneamente tentando alcançar um superávit primário de 0,25% do PIB em 2026 enquanto entra em um ano eleitoral — uma combinação que os mercados veem com ceticismo justificado, dado que os primeiros três trimestres de 2025 produziram um déficit primário superior a 1% do PIB. O Congresso já rejeitou uma proposta de taxa sobre transações financeiras no ano passado, e a relação tributos-PIB do Brasil já é a maior da América Latina.
A Receita Que Ninguém Quer
O argumento de Pessôa é mecanicamente simples: alcançar equilíbrio macroeconômico com taxas de juros mais baixas e dívida estável requer congelar o salário mínimo real em seu nível atual — sem mais aumentos — por muitos anos. Os gastos em saúde e educação precisariam ser indexados ao crescimento demográfico em vez da arrecadação, cortando o vínculo que automaticamente infla a despesa quando a economia se expande.
Essa receita colide frontalmente com a economia política da democracia brasileira. A política de valorização é popular, seus beneficiários são numerosos, e a coalizão de Lula foi construída precisamente no tipo de redistribuição que ela possibilita. A eleição de 2026 será disputada parcialmente neste terreno — se o Brasil pode sustentar um estado de bem-estar social-democrático sobre a base produtiva de uma economia onde a dívida soberana está crescendo mais rápido que a produção.
Por enquanto a resposta é simples: pode, desde que alguém esteja disposto a pagar 15% pelo privilégio de emprestar para ele.
Fontes: Deloitte, Agência Brasil, IMF