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Um pico recorde em janeiro, um rally de 40% em 2025 e um déficit estrutural que nenhuma quantidade de fusões e aquisições pode resolver rapidamente. A tese do superciclo do cobre está sendo testada em tempo real — e as mineradoras que registram lucros extraordinários ainda não conseguem extrair o metal rápido o suficiente.
O Estouro de Janeiro e o Que Veio Depois
Os futuros de três meses do cobre na LME atingiram máxima histórica de US$ 14.527,50 por tonelada métrica em 29 de janeiro, disparando até 11% intraday com compras especulativas lideradas por investidores chineses, segundo a Bloomberg. Os futuros da COMEX atingiram pico de US$ 6,5830 por libra na mesma sessão. O movimento coroou 2025, no qual o cobre da LME subiu mais de 41%. No início de fevereiro, o metal havia recuado abaixo de US$ 13.000, deixando o mercado dividido entre touros ocidentais — posições líquidas compradas na LME no 80º percentil — e ursos chineses executando a maior posição líquida vendida na SHFE desde 2021, como observou a analista da StoneX Natalie Scott-Gray em briefing de janeiro para a S&P Global Platts.
O cenário da demanda é complexo: a transição energética, gastos com defesa e construção de data centers de IA são todos intensivos em cobre. Mas o catalisador imediato foi a política tarifária da era Trump — importadores americanos correndo para posicionar metal antecipadamente diante de potenciais tarifas apertaram a disponibilidade física fora dos EUA. O Goldman Sachs vê o cobre da LME superando US$ 15.000 até 2035, embora tenha alertado sobre consolidação no curto prazo. A previsão da StoneX para 2026 é mais conservadora, com média de US$ 11.490 por tonelada.
Temporada de Resultados: Cobre Paga, Todo o Resto Arrasta
Os resultados semestrais da BHP para o período encerrado em dezembro de 2025 entregaram a prova mais clara do domínio do cobre. O lucro líquido saltou 22% ano a ano para US$ 6,2 bilhões, com o segmento de cobre respondendo por mais da metade do EBITDA do grupo em US$ 8 bilhões — um aumento de 59% — impulsionado pela produção recorde em Escondida e a integração da OZ Minerals. A BHP também fechou o maior acordo de streaming de prata de sua história, um acordo de US$ 4,3 bilhões com a Wheaton Precious Metals.
A Glencore reportou EBITDA ajustado anual de US$ 13,51 bilhões, queda de 6% já que preços mais fracos do carvão compensaram a força dos metais, mas o lucro central do segundo semestre disparou 49% com base em volumes maiores de cobre. O CEO Gary Nagle delineou planos para elevar a produção além de um milhão de toneladas anualizadas até o final de 2028 e almejar cerca de 1,6 milhão de toneladas até 2035, parcialmente através de um acordo de acesso à terra recém-finalizado com a Gécamines para a mina KCC na RDC. A Teck Resources, enquanto isso, citou preços recordes do cobre como o principal impulsionador de sua melhora nos lucros e permanece em discussões de fusão com a Anglo American visando criar uma grande empresa dedicada ao cobre.
KGHM: A Gigante Polonesa do Cobre Surfa na Onda — Com Ressalvas
A KGHM Polska Miedź, a maior produtora mundial de prata e uma das dez maiores mineradoras de cobre, tem sido beneficiária direta do rally, mas enfrenta uma história de resultados mais complexa. Nos primeiros nove meses de 2025, o grupo reportou EBITDA de PLN 7,2 bilhões, alta de 16% ano a ano, sobre receitas de PLN 25,9 bilhões. A produção de cobre comercializável de 526.000 toneladas estava alinhada com as metas orçamentárias. A mina chilena de joint-venture Sierra Gorda entregou resultado ainda mais forte: seu lucro central ajustado disparou 60% para US$ 970 milhões no mesmo período, impulsionado por volumes maiores de cobre e molibdênio, conforme reportado pela Mining.com.
As ações da KGHM atingiram máxima de 52 semanas de PLN 212,50 no final de novembro, coroando um ganho anual de 81,6%, mas desde então se corrigiram em meio à turbulência na gestão e volatilidade dos preços do cobre. Um vento favorável significativo chega em 2026: o governo da Polônia anunciou redução no imposto de mineração de cobre, pago exclusivamente pela KGHM, o que deve reduzir os custos C1. A empresa também está investindo PLN 3,8 bilhões em nova infraestrutura de poços e atualizações de fundição, posicionando-se para estabilidade de produção de longo prazo em seu corpo de minério envelhecido na Baixa Silésia. A KGHM permanece como uma jogada de alto beta no cobre e prata, com potencial de alta ligado à demanda global acelerada por metais condutivos impulsionada pela expansão de semicondutores e data centers.
O Gargalo de Oferta Que o Dinheiro Não Pode Resolver
A IEA estima que leva em média 16 anos para levar uma nova mina de cobre da descoberta à primeira produção. Benjamin Louvet, diretor de commodities da Ofi Invest AM, disse à AFP que a indústria subestimou a dimensão elétrica da transição energética. Ele argumentou que o cobre precisaria sustentar US$ 15.000 por tonelada antes que as mineradoras se comprometessem com projetos greenfield genuinamente novos, dado o custo e o risco de licenciamento. A escassez de capital agrava o problema: investimentos de mineração de longo ciclo competem mal contra alternativas de retorno mais rápido, empurrando a indústria em direção à consolidação como a rota preferida para crescimento. A abordagem de mega-fusão fracassada da Glencore com a Rio Tinto no início de fevereiro — um acordo que teria criado um grupo de US$ 240 bilhões — ilustra tanto o apetite quanto a dificuldade. A pressão mais ampla sobre produtores de metais industriais de tarifas e fluxos comerciais em mudança apenas adiciona à incerteza que enfrentam conselhos avaliando compromissos de desenvolvimento de décadas e multibilionários.
O estoque estratégico não oferece atalho. Mesmo se os EUA e nações aliadas acelerassem a construção de reservas, Louvet estima que tais amortecedores cobririam cerca de 60 dias de consumo global — um erro de arredondamento contra a demanda anual de aproximadamente 28 milhões de toneladas. O desafio estrutural permanece: novas minas são aprovadas apenas quando as escassezes já são agudas, garantindo picos de preços seguidos por anos de oferta insuficiente.