Netflix Desiste da Warner Bros., Embolsa US$ 2,8 Bilhões e Ganha os Aplausos de Wall Street

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A gigante do streaming retirou sua oferta de US$ 82,7 bilhões pela Warner Bros. Discovery em menos de duas horas, cedendo o maior estúdio de Hollywood à proposta de US$ 111 bilhões da Paramount Skydance. As ações da Netflix saltaram 14% na sexta-feira, enquanto a Paramount disparou 21%. Uma das duas fez a escolha certa — e o mercado tem uma opinião bem definida sobre qual delas.

Ted Sarandos ainda estava dentro da Casa Branca quando a notícia estourou. O co-CEO da Netflix havia passado a manhã de quinta-feira fazendo lobby com autoridades do governo a favor da aquisição da Warner Bros. Reuniões com assessores, incluindo a procuradora-geral Pam Bondi. Deliberadamente, nenhuma com o presidente. Logo após o almoço, o conselho da Warner Bros. Discovery declarou formalmente a proposta mais recente da Paramount Skydance como “superior”. A Netflix tinha quatro dias úteis para fazer uma contraproposta. Levou menos de duas horas para dizer não.

“Esta transação sempre foi um ‘bom ter’ pelo preço certo, não um ‘preciso ter’ a qualquer preço”, escreveram Sarandos e o co-CEO Greg Peters em comunicado conjunto em 26 de fevereiro. Essa única frase fez mais pelo preço das ações da Netflix do que qualquer surpresa positiva de lucros. NFLX fechou a sexta-feira em US$ 96,24, alta de 13,8% em relação aos US$ 84,59 de quinta, recuperando cerca de dois terços da queda de 18% acumulada desde o primeiro anúncio de interesse pela Warner Bros., em 5 de dezembro.

A Conta Que Matou o Negócio

Eis o que os investidores não queriam que a Netflix fizesse: igualar US$ 31 por ação pela totalidade da Warner Bros. Discovery. O acordo original de dezembro da Netflix era estruturado de outra forma — oferecia US$ 27,75 por ação apenas pelos estúdios e ativos de streaming, uma fatia mais limpa que excluía o negócio de TV a cabo em declínio. Valor total da empresa: cerca de US$ 82,7 bilhões. A contraproposta da Paramount mirou tudo: HBO, CNN, TNT, Discovery Channel, o portfólio internacional incluindo o grupo TVN da Polônia, e aproximadamente US$ 33 bilhões em dívida legada. Tudo por US$ 111 bilhões.

Só o financiamento já deveria acender um sinal de alerta para os acionistas. Segundo a Bloomberg, a Paramount garantiu US$ 57,5 bilhões em compromissos de dívida junto a Bank of America, Citigroup e Apollo Global Management, respaldados por uma garantia pessoal de capital de US$ 45,7 bilhões de Larry Ellison, cofundador da Oracle e pai do CEO da Paramount, David Ellison.

Ben Barringer, chefe de pesquisa em tecnologia da Quilter Cheviot, em Londres, disse à CNBC que a desistência foi um “ponto positivo” para a disciplina da gestão. Analistas do HSBC foram mais diretos, descrevendo a vitória da Paramount como algo que deixa a empresa “soterrada em dívidas colossais”. Ross Benes, analista sênior da Emarketer, também não mediu palavras: segundo ele, o negócio “tem mais a ver com Ellison dominando Hollywood e com ego do que com bom senso empresarial”.

O Que a Paramount Realmente Comprou

No papel, a entidade combinada impressiona. A Warner Bros. Discovery reportou US$ 37,3 bilhões em receita em 2025, queda de 5% na comparação anual segundo seu balanço do quarto trimestre, além de 132 milhões de assinantes de streaming entre HBO Max e Discovery+. A Paramount, por sua vez, opera CBS, MTV, Paramount+ e o estúdio por trás de franquias como Missão: Impossível e Transformers. Juntas, rivalizariam com Disney e NBCUniversal da Comcast em escala pura.

Mas escala não é sinônimo de saúde financeira. A WBD só voltou ao lucro no ano passado, com um lucro líquido de US$ 727 milhões após registrar um prejuízo de US$ 11,3 bilhões em 2024, em grande parte por baixas contábeis de ativos. O negócio de TV a cabo — justamente a parte que a Netflix não queria — continua encolhendo. A própria Paramount registrou prejuízo líquido no quarto trimestre de 2025. A primeira tarefa da empresa combinada será honrar uma montanha de dívidas enquanto tenta integrar dois estúdios que nunca dividiram sequer um set de filmagem.

A Paramount projeta mais de US$ 6 bilhões em sinergias, principalmente por consolidação tecnológica e cortes de custos corporativos. Se o número parece ambicioso, é porque Wall Street tem recompensado empresas que cortam custos e chamam isso de transformação. O recente corte de 4.000 vagas da Block sob a bandeira da IA fez suas ações dispararem. Mas o histórico de megafusões entregando as sinergias prometidas é, para ser generoso, duvidoso. A AT&T comprou a Time Warner em 2018 por US$ 85 bilhões. Quatro anos depois, desmembrou o negócio inteiro por cerca de metade desse valor implícito, criando justamente a entidade que agora está sendo vendida de novo. A Warner Bros. Discovery está prestes a passar por sua terceira grande troca de dono em menos de uma década.

As Conexões Políticas

Não há como separar este negócio de Washington. David Ellison assistiu ao discurso do Estado da União de Trump como convidado do senador Lindsey Graham — os dois apareceram sorrindo com o polegar para cima em uma foto publicada na conta do senador no X. A Paramount contratou Makan Delrahim, ex-chefe antitruste de Trump, para conduzir sua estratégia regulatória. O consórcio da família Ellison também detém participação nas operações reestruturadas do TikTok nos EUA. Alvaro Bedoya, ex-comissário do FTC, foi direto ao ponto no X: “Uma única família está prestes a controlar CBS, CNN, HBO e TikTok.”

Os democratas reagiram. A senadora Elizabeth Warren classificou a transação como um “desastre antitruste”. O procurador-geral da Califórnia, Rob Bonta, prometeu uma investigação “vigorosa”, destacando que “esses dois titãs de Hollywood ainda não passaram pelo crivo regulatório”. O senador Cory Booker, líder democrata no subcomitê antitruste do Senado, convidou Ellison a depor em audiência originalmente marcada para 4 de março. Os acionistas da WBD devem votar a fusão em 20 de março, mas as aprovações regulatórias federais, estaduais e europeias podem empurrar o cronograma para o segundo semestre de 2026.

A ironia é gritante. A Netflix, que sofreu escrutínio bipartidário por receios de monopólio durante a audiência de Sarandos (republicanos a atacaram por programação “woke”, democratas se preocuparam com concentração de mercado), foi superada por uma empresa cujas conexões políticas chegam diretamente ao Salão Oval. Como destacou uma análise do Deadline, a Paramount teve uma “abordagem 360 graus” cobrindo frentes financeiras, regulatórias e políticas simultaneamente. A Netflix tinha uma planilha e disciplina. Desta vez, a planilha venceu.

O Que a Netflix Ganha em Troca

A multa rescisória de US$ 2,8 bilhões, paga pela Paramount diretamente à Netflix conforme documento da SEC de 28 de fevereiro, é um belo prêmio de consolação. Mas o verdadeiro ganho é estrutural. A Netflix sai dessa história sem risco de integração, sem ativos de TV a cabo legados corroendo suas margens, sem US$ 33 bilhões em dívida herdada e sem um calvário regulatório pela frente. Seus resultados de 2025 falam por si: US$ 45,2 bilhões em receita, margem operacional de 29,5% (ante 26,7% no ano anterior), US$ 11 bilhões em lucro líquido e 325 milhões de assinantes pagantes se aproximando de um bilhão de espectadores no total, segundo o balanço do quarto trimestre de 2025 divulgado em 20 de janeiro. A empresa projeta US$ 51 bilhões em receita para 2026, com margens ainda em expansão. A Paramount não chega nem perto desses números.

Dan Coatsworth, chefe de mercados da AJ Bell, definiu a Paramount como “a retardatária do mercado de streaming” que precisa do conteúdo da Warner para competir, acrescentando que “vai precisar de muito mais que Harry Potter para essa mágica funcionar”. Essa análise resume bem a assimetria: a Paramount precisava deste negócio, enquanto a Netflix se deu ao luxo de recusá-lo. No contexto mais amplo de consolidação da indústria de mídia, onde veículos estão cortando pessoal e correndo atrás de escala, o fato de a líder do mercado ter optado pela contenção em vez da expansão fala mais alto do que qualquer comunicado à imprensa.

Em algum lugar de Burbank, os documentos de planejamento de integração já estão sendo impressos. A Paramount espera fechar o negócio até o terceiro trimestre de 2026. Até lá, cada roteirista, comprador de mídia e executivo de TV a cabo dentro das duas empresas terá que conviver com a incerteza. A Netflix, enquanto isso, lança mais uma temporada do que bem entender. Não precisa pedir permissão a ninguém.

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Mark Cullen
Mark Cullen
Senior Stocks Analyst — Mark Cullen is a Senior Stocks Analyst at Finonity covering global equity markets, corporate earnings, and IPO activity. A London-based professional with over 20 years of experience in communications and operations across financial, government, and institutional environments, Mark has worked with organisations including the City of London Corporation, LCH, and the UK's Department for Business, Energy and Industrial Strategy. His extensive background in strategic communications, market research, and stakeholder management — including coordinating financial services partnerships during COP26's Green Horizon Summit — informs his ability to distill complex market dynamics into clear, accessible analysis for investors.

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