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As fábricas de chips de Pequim produziram mais semicondutores em 2024 do que nunca antes, mas o número manchete esconde uma realidade mais complexa: lucros das foundries em colapso, um fundo estatal de US$ 47,5 bilhões financiando a expansão, e um laboratório secreto em Shenzhen onde ex-engenheiros da ASML estão montando algo que o Ocidente passou anos tentando impedir.
Produção Recorde, Margens Mínimas
O Ministério da Indústria e Tecnologia da Informação da China relatou que a produção de semicondutores atingiu 484,3 bilhões de unidades em 2024, alta de 85,2% em relação a 2020. A produção de circuitos integrados sozinha chegou a 4.514 bilhões de unidades — um aumento ano a ano de 22,2% e a categoria de produtos que mais cresceu no setor eletrônico chinês. As exportações de circuitos integrados atingiram US$ 159,5 bilhões, alta de 17,4% e superaram os telefones celulares como principal exportação eletrônica do país pela primeira vez, segundo dados alfandegários reportados pela TrendForce.
O aumento está concentrado em chips legados — semicondutores de 28 nanômetros ou mais antigos — deliberadamente excluídos dos controles de exportação dos EUA. A TrendForce projeta que a participação da China na capacidade global de processos maduros crescerá de 34% em 2024 para 47% até 2027, superando Taiwan. A SEMI estima que fabricantes chineses adicionaram 18 novas fábricas apenas em 2024, com 26 novas instalações esperadas entre 2022 e 2026 — mais do que qualquer outro país, conforme análise da ITIF.
Mas o volume está esmagando as margens. A SMIC, maior foundry da China e terceira maior do mundo desde o primeiro trimestre de 2024 (conforme Counterpoint Research), registrou US$ 8,03 bilhões em receita — alta de 27% — mas o lucro líquido desabou 45,4% para US$ 493 milhões, segundo seu registro na bolsa de Hong Kong. A Hua Hong Semiconductor teve desempenho pior: lucro despencou 79,2% para US$ 58 milhões. Para contextualizar, a TSMC obteve US$ 35 bilhões em lucro líquido — cerca de 70 vezes a cifra da SMIC com 12 vezes a receita. A compressão de margens reflete o que acontece quando metas de produção impulsionadas por subsídios se sobrepõem à disciplina de lucros.
O Financiamento Estatal
Pequim lançou a terceira fase de seu Fundo Nacional de Circuitos Integrados em maio de 2024 com 344 bilhões de yuans (US$ 47,5 bilhões) em capital registrado — a maior parcela até agora. O Ministério das Finanças detém 17% ao lado do ICBC, China Construction Bank e China Mobile, conforme análise da SIA. A Fase 3 visa manufatura avançada, chips de IA e memória de alta largura de banda. Os desembolsos cumulativos do Fundo Nacional de Circuitos Integrados agora totalizam US$ 47,7 bilhões em três fases. Separadamente, a China gastou US$ 41 bilhões em equipamentos de fabricação de wafers em 2024 — cerca de 40% de todas essas compras mundialmente.
O Protótipo de Shenzhen
O desenvolvimento mais consequente pode não aparecer em nenhum dado de produção. Em dezembro de 2025, a Reuters reportou que engenheiros — incluindo ex-funcionários da ASML recrutados com bônus de até 5 milhões de yuans — completaram um protótipo de máquina de litografia ultravioleta extrema em uma instalação de alta segurança em Shenzhen. O protótipo gera luz EUV de 13,5 nanômetros, mas ainda não produziu chips funcionais. Pequim tem como meta 2028 para produção de chips; fontes mais próximas ao projeto disseram à Reuters que 2030 é mais realista.
A litografia EUV é o gargalo mais crítico na fabricação de chips avançados, controlado exclusivamente pela ASML, cujas máquinas custam cerca de US$ 250 milhões cada. Nenhum sistema EUV jamais foi vendido à China. Um artigo de março de 2025 publicado pela Chinese Laser Press relatou que a equipe alcançou 3,42% de eficiência de conversão — superando os 3,2% alcançados pela própria ARCNL da Holanda em 2019. O analista da Morningstar Javier Correonero alertou que converter EUV de escala laboratorial em manufatura viável pode levar anos ou décadas. Mas a existência do protótipo já abalou a suposição de que controles de exportação representam uma barreira permanente.
O Paradoxo da Importação
Apesar de todos os marcos de produção, a China importou 549,2 bilhões de circuitos integrados no valor de US$ 385 bilhões em 2024 — mais do que sua conta de importação de petróleo bruto de US$ 325 bilhões — segundo dados da Administração Geral de Alfândegas reportados pelo SCMP. Grande parte do aumento refletiu estocagem antes de controles mais rígidos da era Biden. A ITIF estima que a China permanece cerca de cinco anos atrás dos líderes globais em chips lógicos de ponta. A SMIC pode produzir 7 nm usando duplo padronamento DUV para processadores Kirin da Huawei, mas o processo é lento e caro. Enquanto isso, a TSMC está avançando para nós sub-2 nm com EUV High-NA de próxima geração da ASML, e a recalibração contínua da política comercial dos EUA pode reformular completamente a estrutura de controles de exportação.
Os números de produção dizem que a China está construindo a fábrica. Os números de lucro dizem que ela não descobriu o modelo de negócios. E o laboratório de Shenzhen diz que ela não planeja parar.