O DOJ Está Investigando a Binance por Causa do Irã. A Resposta da Binance? Processar o Jornal que Publicou a Matéria.

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Na manhã de quarta-feira, o Wall Street Journal noticiou que o Departamento de Justiça dos EUA abriu uma investigação para apurar se o Irã usou a Binance para movimentar mais de um bilhão de dólares pela exchange, violando sanções americanas. Na quarta à tarde, a Binance já havia entrado com uma ação por difamação contra o Wall Street Journal no Distrito Sul de Nova York. Mesmo dia. As duas coisas acontecendo ao mesmo tempo. Esse é o resumo.

O Contexto que o DOJ Não Menciona

Vale a pena deixar a sequência bem clara. Em 28 de fevereiro, Estados Unidos e Israel lançaram ataques conjuntos contra o Irã, iniciando uma guerra que desde então fechou o Estreito de Ormuz, empurrou o petróleo acima dos US$ 100 e cortou o Irã do que restava de seu acesso ao sistema financeiro internacional. O país que está sendo bombardeado agora é também o país pelo qual o DOJ está processando exchanges terceiras por supostamente facilitar movimentações financeiras. A Binance é uma exchange de criptomoedas registrada nas Ilhas Cayman e que opera efetivamente a partir de Dubai. Não é parte no conflito. Não planejou os ataques. É uma plataforma externa pela qual usuários iranianos e, supostamente, redes ligadas ao Estado iraniano movimentaram fundos — em parte porque toda alternativa convencional já havia sido bloqueada por sanções.

Esse enquadramento não faz a investigação do DOJ desaparecer. Mas é a razão pela qual ela está tendo o impacto que tem, na mesma semana em que os EUA estão escoltando navios pelo Estreito para proteger petroleiros que eles mesmos ajudaram a colocar em risco.

O que o WSJ Realmente Disse

A reportagem do Journal, citando documentos da empresa e pessoas a par do assunto, descreve uma investigação do DOJ focada em transações que supostamente fluíram pela Binance para redes de apoio a grupos militantes apoiados pelo Irã, incluindo o movimento Houthi no Iêmen e entidades ligadas ao Corpo de Guardiões da Revolução Islâmica (IRGC). A investigação examina mais de US$ 1 bilhão em transferências, e investigadores teriam começado a contatar pessoas com conhecimento das transações para reunir evidências.

Agora vem a parte que torna isso mais do que uma história rotineira de sanções. Segundo o Journal, com confirmação do The Block e do CoinDesk, a Binance conduziu uma investigação interna sobre esses fluxos. A equipe rastreou aproximadamente US$ 1,7 bilhão saindo de clientes chineses para carteiras vinculadas a redes de financiamento iranianas. Uma empresa de pagamentos sediada em Hong Kong chamada Blessed Trust foi o principal canal, com mais de US$ 1 bilhão supostamente passando por ela. E então a Binance encerrou a investigação interna. Em novembro. Depois que a equipe reportou o que encontrou.

O DOJ percebeu.

O monitor indicado pelo Tesouro que supervisiona o programa de compliance da Binance, instalado como parte do acordo de 2023, também solicitou registros detalhados sobre as transações sinalizadas. O senador Richard Blumenthal abriu separadamente uma investigação no Congresso. Nas palavras dele, conforme reportado pelo crypto.news: a escala das transferências “não detectadas” e a suspensão dos investigadores que as detectaram “colocam em dúvida o cumprimento da Binance com as sanções americanas e a legislação bancária.”

Os Números da Binance Não Fecham

A Binance reagiu com força. Um porta-voz da empresa disse que “categoricamente não transacionou diretamente com nenhuma entidade sancionada” e que a atividade suspeita foi identificada por suas próprias investigações antes de ser reportada às autoridades. Também afirmam que apenas US$ 24 milhões chegaram de fato a carteiras vinculadas ao IRGC, não os mais de US$ 1 bilhão citados pelo Journal.

Esses US$ 24 milhões são um número da própria Binance. E esse número também confirma que carteiras ligadas ao IRGC receberam fundos roteados pela Binance — que é exatamente o que o regime de sanções foi desenhado para impedir, independentemente do valor. A distância entre “US$ 24 milhões confirmados” e “US$ 1,7 bilhão sinalizado” é onde mora a exposição jurídica, e o DOJ agora está instalado justamente nesse vão.

Segundo reportagens anteriores compiladas pelo Journal, pelo NYT e pela Fortune, a Binance mantinha cerca de 2.000 contas vinculadas ao Irã e processou quase US$ 2 bilhões em transferências relacionadas. A exposição da Binance ao Irã já faz parte das conversas sobre compliance há meses. A investigação do DOJ na quarta-feira parece menos uma acusação nova e mais a abertura formal de um dossiê que já estava na mesa de alguém desde antes do primeiro míssil ser disparado.

O Processo é Corajoso ou Imprudente

A ação por difamação alega que o Wall Street Journal publicou pelo menos 11 declarações falsas em uma reportagem de fevereiro, afirmando que a Binance facilitou mais de US$ 1 bilhão em transferências para entidades sancionadas e demitiu funcionários que levantaram preocupações de compliance. A Binance diz que as saídas foram por violações internas de proteção de dados, não por retaliação.

Entrar com uma ação de difamação contra um jornal sobre o mesmo assunto pelo qual você está sendo investigado pelo governo federal é uma escolha estratégica bem específica. Segundo o 99Bitcoins, isso expõe a empresa ao processo de discovery — a fase jurídica em que os advogados do WSJ podem solicitar e-mails internos da Binance para verificar se a reportagem era precisa. Empresas com problemas sérios de compliance normalmente não entram com ações que convidam esse tipo de produção de documentos. O CEO Richard Teng parece estar apostando que o discovery ajuda mais a Binance do que a prejudica. Se isso é confiança ou blefe, os próximos meses de litígio vão esclarecer.

Para contextualizar: CZ recebeu um perdão presidencial de Trump em outubro de 2025, após cumprir quatro meses por acusações de lavagem de dinheiro decorrentes do acordo de 2023. Bloomberg e Forbes o classificam entre os indivíduos mais ricos do mundo. O homem que estava sob custódia federal 18 meses atrás agora é a pessoa mais rica do mercado cripto — e a exchange que ele fundou está sendo investigada novamente por evasão de sanções ligada ao mesmo país que os EUA estão bombardeando neste momento.

O Eixo Irã-Cripto Está Crescendo, Não Diminuindo

Dados da Chainalysis, citados pelo The Block, mostram que as saídas de criptomoedas do Irã dispararam nas semanas seguintes aos ataques aéreos de 28 de fevereiro. O padrão é consistente: toda vez que o acesso convencional é cortado, os trilhos cripto absorvem mais volume. Aconteceu em 2019 durante o colapso do JCPOA, aconteceu em 2022, e está acontecendo agora numa escala que nenhum desses episódios anteriores se aproximou. Quando você bombardeia um país e fecha seu sistema bancário ao mesmo tempo, você não elimina os fluxos financeiros. Você os empurra para a infraestrutura cripto de saída do Irã, que foi construída justamente para sobreviver a esse cenário.

Pesquisas da TRM Labs confirmam o padrão: os volumes de negociação cripto iranianos caíram significativamente nos últimos anos, mas a infraestrutura permanece estruturalmente resiliente. Ninguém constrói infraestrutura resiliente para uso casual. O DOJ está investigando um sintoma. A causa é a arquitetura de sanções que transformou as criptomoedas no único canal viável.

O escopo do DOJ ainda não está claro. Os investigadores não confirmaram se a Binance em si é alvo ou se estão focados em usuários específicos que exploraram a plataforma. Essa distinção importa enormemente para o que acontece com o preço do BTC e com as licenças de operação da Binance em suas mais de 20 jurisdições. Uma acusação formal contra a exchange seria uma categoria de evento completamente diferente de uma ação focada em usuários com a qual a Binance tenha cooperado.

O Bitcoin está sendo negociado em torno de US$ 69.500 hoje, basicamente lateralizado. A notícia sobre a Binance não rompeu a consolidação entre US$ 65.000 e US$ 73.000 na qual o mercado está preso o mês inteiro. A linha de vida cripto do Irã e a ação de preço do BTC já vêm se movendo juntos desde o início dos ataques. Se a investigação do DOJ escalar para acusações formais contra a exchange em si, essa correlação fica muito mais interessante. Configure seus alertas.

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Gustaw Dubiel
Gustaw Dubiel
Crypto Editor - Gustaw covers the cryptocurrency space for Finonity, from Bitcoin and Ethereum to emerging altcoins, DeFi protocols, and on-chain analytics. He tracks regulatory developments across jurisdictions, institutional adoption trends, and the evolving intersection of traditional finance and digital assets. Based in Warsaw, Gustaw brings a critical eye to a fast-moving sector, separating signal from noise for readers who need clarity in an often-chaotic market.

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