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Um drone iraniano Shahed-136 atingiu a refinaria de Ras Tanura, da Saudi Aramco, na manhã de segunda-feira, segundo a India TV News citando imagens de redes sociais e fontes militares sauditas. O ataque forçou a paralisação de 550.000 barris por dia de capacidade de refino e representa o primeiro acerto direto iraniano em infraestrutura energética do Golfo desde o início do conflito. O Brent saltou para US$ 79,41 nas negociações iniciais — alta de cerca de 9% em relação ao fechamento de sexta-feira — e o pregão ainda não terminou.
O Que Aconteceu em Ras Tanura
A Aramco fechou o complexo de Ras Tanura como medida de precaução depois que o impacto do drone provocou um incêndio, segundo a Bloomberg, citando pessoas familiarizadas com o assunto. As chamas foram controladas e não há relatos de vítimas até o momento. A Reuters confirmou a paralisação, citando uma fonte da indústria que descreveu a situação como “sob controle”. O Ministério da Defesa saudita informou ter interceptado drones adicionais direcionados à instalação, conforme reportou a India TV News.
Esse último detalhe importa mais do que o drone que conseguiu passar. Se múltiplos drones foram lançados contra uma única refinaria, não se tratou de um projétil perdido da onda de retaliação mais ampla — foi um ataque deliberado à infraestrutura energética. O The National reportou que o ataque representa o primeiro acerto iraniano em ativos de energia do Golfo neste conflito — uma linha que Teerã não havia cruzado até então, mesmo tendo lançado mísseis contra aeroportos em Dubai, Abu Dhabi e Bahrein ao longo do fim de semana.
Por Que Esta Refinaria É Tão Importante
Ras Tanura não é apenas uma refinaria. É a mais antiga e maior da costa do Golfo Pérsico, com capacidade de destilação de 550.000 barris por dia de petróleo bruto, segundo MEED e Offshore Technology. Também é um dos terminais de exportação mais críticos do mundo para o petróleo saudita, como destacou o BusinessToday. O complexo processa petróleo dos campos de Abqaiq e Khurais — as mesmas fontes upstream que foram atingidas no ataque com drones e mísseis de setembro de 2019, que tirou temporariamente metade da produção da Arábia Saudita do mercado. O The National acrescentou que a paralisação de Ras Tanura é a segunda interrupção na Aramco em poucos dias — o terminal de gás liquefeito de petróleo de Juaymah, localizado nas proximidades, já havia tido suas exportações suspensas no início da semana.
É justamente o paralelo com Abqaiq que deixa as mesas de petróleo em alerta nesta manhã. Em 2019, drones e mísseis de cruzeiro reivindicados pelos Houthis atingiram Abqaiq e Khurais, retirando cerca de 5,7 milhões de barris por dia do fornecimento global — a maior interrupção já registrada, segundo a Agência Internacional de Energia — e levando o Brent a subir quase 20% intraday, conforme a Al Jazeera citando a Bloomberg. Foi o maior salto em um único pregão desde a invasão do Kuwait em 1990. A Arábia Saudita levou semanas para restaurar totalmente a produção, em parte porque Abqaiq continha equipamentos de processamento especializados que, como Bob McNally do Rapidan Energy Group disse à CNN, “não dá pra simplesmente encomendar da General Electric”. Ras Tanura recebe petróleo desses mesmos campos. Se os danos forem maiores do que a Aramco está declarando publicamente, o cronograma de reparo pode repetir o cenário de 2019.
O Cenário de Preços
O Brent já vinha aquecido antes do ataque a Ras Tanura. Fechou na sexta-feira a US$ 72,48 por barril — máxima de sete meses, segundo a Reuters — após subir 2,45% apenas com expectativas de guerra. A abertura de domingo à noite foi violenta. No início de segunda-feira, a CNBC reportou o Brent a US$ 79,41, alta de cerca de 9%, ou US$ 6,54 no pregão. Dados da FactSet mostraram o benchmark negociado a US$ 78,55 mais cedo pela manhã, já com alta de 7,8%. O WTI acompanhou, saltando mais de 8% para US$ 72,57. A India TV News citou futuros de petróleo na MCX atingindo máxima histórica de Rs 6.700 por barril, alta de 9,73% no dia.
A faixa de projeções dos analistas se ampliou rapidamente. O analista Amarpreet Singh, do Barclays, alertou clientes no sábado que o Brent poderia chegar a US$ 100 por barril, segundo a CNBC. Analistas do UBS liderados por Henri Patricot foram além em uma nota de domingo, sinalizando um cenário acima de US$ 120 caso haja uma interrupção prolongada e significativa. Javier Blas, da Bloomberg, adotou uma visão mais comedida, estimando um salto de 10 a 15% na abertura e argumentando que um choque histórico no petróleo continuava improvável — desde que o Estreito de Ormuz permaneça aberto. Dimensione suas posições com isso em mente. A distância entre o Brent a US$ 80 e o Brent a US$ 120 é a distância entre “conflito contido” e “o estreito está fechado”.
O Estreito Que Ninguém Quer Discutir
Cerca de 13 milhões de barris por dia de petróleo bruto passam pelo Estreito de Ormuz — aproximadamente 20% da oferta marítima global, segundo a Kpler. O Irã controla a margem norte. A Ship & Bunker reportou que o Irã parece estar tentando restringir a navegação comercial pela passagem, embora nenhum fechamento formal tenha sido declarado. Dois navios já foram atingidos na região, segundo a CNBC: um petroleiro com bandeira de Palau chamado Skylight foi atacado a 5 milhas náuticas ao norte do estreito, e o MKD VYOM, com bandeira das Ilhas Marshall, foi danificado na costa de Omã. O Centro de Segurança Marítima de Omã confirmou o segundo incidente.
Dylan Mortimer, da corretora Marsh, disse à CNBC que os prêmios de seguro de risco de guerra para cascos marítimos no Golfo podem disparar entre 25% e 50%. Só isso já eleva o custo de entrega de cada barril que transita por Ormuz, mesmo antes de contabilizar os custos de rerotas que vêm se acumulando desde que os ataques do fim de semana empurraram o petróleo para US$ 73 e o ouro passou de US$ 5.300.
A Posição Impossível da Arábia Saudita
Aqui está o que o mercado de energia ainda não precificou totalmente. A Arábia Saudita não participou dos ataques americano-israelenses contra o Irã. Riad fechou explicitamente seu espaço aéreo e informou a Washington que não permitiria o uso de território saudita para operações contra Teerã, conforme reportou o Middle East Eye, citando duas fontes árabes do Golfo. O príncipe herdeiro Mohammed bin Salman ligou para líderes do Golfo no sábado pedindo moderação e para evitar que qualquer Estado do CCG provocasse uma escalada.
Mesmo assim, Teerã os atingiu. O Ministério das Relações Exteriores saudita, por meio da agência estatal Saudi Press Agency, condenou o que chamou de “ataques iranianos flagrantes e covardes” contra Riad e a Província Oriental, conforme reportou a Al Arabiya, e afirmou que o reino tomaria “todas as medidas necessárias” para se defender, “incluindo a opção de responder à agressão”. Um comunicado conjunto emitido pelo Departamento de Estado dos EUA no domingo, coassinado pela Arábia Saudita, Emirados Árabes Unidos, Bahrein, Kuwait, Catar e Jordânia, foi além, afirmando o direito à legítima defesa e classificando as ações do Irã como “imprudentes e desestabilizadoras”.
Essa trajetória é fundamental para quem opera petróleo. Se a Arábia Saudita for arrastada para uma retaliação ativa contra o Irã, não estamos mais diante de um conflito entre o eixo EUA-Israel e Teerã. Estamos diante de um produtor de petróleo ativamente envolvido em um confronto armado com um produtor vizinho, com o gargalo energético mais crítico do mundo entre os dois. O cenário de reprecificação que os mercados temiam no domingo à noite ficou substancialmente pior.
O Que Observar
Três fatores vão determinar se o Brent se acomoda na faixa dos US$ 80 ou rompe a barreira dos US$ 100. Primeiro: a velocidade com que a Aramco restaura Ras Tanura. Se for uma paralisação preventiva de 48 horas, os mercados de gasóleo se acalmam até quarta-feira. Se houver danos estruturais às unidades de destilação, estamos falando de semanas — e o roteiro de Abqaiq se torna a referência. Segundo: o Estreito de Ormuz. Cada petroleiro que transita sem incidentes puxa os preços para baixo; cada navio atingido os empurra para cima. Terceiro: o próximo passo da Arábia Saudita. Riad já tem a linguagem de retaliação registrada. Se vai cumprir o que sinalizou — e contra quais alvos — definirá a próxima pernada deste mercado. Três dias atrás, ninguém estava posicionado para isso. Planeje-se.