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O ouro à vista disparou para a máxima de um mês acima de US$ 5.400 na segunda-feira, impulsionado pela guerra no Irã que provocou uma corrida histórica por ativos reais. Os ganhos, porém, derreteram rapidamente depois que os traders começaram a precificar o cenário que os altistas menos querem: um Federal Reserve forçado a subir juros diante de um choque estagflacionário. O metal acumula alta de 23% no ano e 85% em doze meses. Se vai ou não renovar máxima depende menos de Teerã e mais do que Jerome Powell fará a seguir.
O Que Aconteceu na Segunda-feira
O ouro abriu com o maior gap desde o fim de 2025. O preço à vista saltou do fechamento de sexta-feira perto de US$ 5.248 para testar US$ 5.419,60 durante as sessões asiática e europeia, segundo a Bloomberg — o nível mais alto desde o fim de janeiro, quando o metal atingiu seu recorde histórico de US$ 5.589. Os futuros cruzaram brevemente os US$ 5.400. Mas, como uma mola esticada além do limite, o movimento reverteu. Ao meio-dia em Nova York, o preço à vista já havia recuado para a faixa de US$ 5.305 a US$ 5.338, ainda cerca de 2% acima no dia, mas muito distante dos picos de pânico matinais. A Bloomberg informou que o ouro chegou a cair 0,3% antes de se estabilizar cerca de 1% no positivo ao fechamento.
Vale entender esse padrão se você tem qualquer exposição a ouro agora. O pico inicial foi pura demanda por porto seguro. Ataques coordenados dos EUA e Israel no fim de semana, os lançamentos de mísseis retaliadores do Irã pelo Golfo e o fechamento efetivo do Estreito de Ormuz criaram o tipo de choque geopolítico que faz todo alocador institucional correr para o mesmo ativo ao mesmo tempo. Mas aí o vento mudou. O petróleo já tinha saltado 8% ou mais, e os traders começaram a fazer as contas: o que um Brent acima de US$ 80 faz com a inflação, o que uma inflação persistente faz com a política do Fed, e o que um ciclo de alta de juros faz com um metal sem rendimento que subiu 64% em 2025 e já acumula outros 23% este ano.
O Cabo de Guerra Dentro do Preço
Frank Monkam, chefe de estratégia macro multi-ativos da Buffalo Bayou Commodities, disse à Bloomberg que os ganhos do ouro foram limitados quando os traders passaram a precificar riscos inflacionários mais altos, capazes de forçar o Fed e seus pares globais a subir juros. É essa a tensão em que suas posições estão encaixadas agora. De um lado, a maior disrupção de oferta de petróleo desde os anos 1970 joga combustível na demanda por porto seguro. Do outro, essa mesma disrupção gera o excesso de inflação que historicamente mata os rallies do ouro.
Edward Meir, da Marex, enquadrou o trade com uma clareza difícil de superar numa compilação da Reuters: espere um salto reflexo de US$ 200 por onça, seguido de uma acomodação assim que o mercado decidir se os fluxos de petróleo realmente ficarão interrompidos. Tai Wong, trader independente de metais preciosos, acrescentou que qualquer queda com a confirmação dos fatos encontrará compradores rápido, porque o cenário no Irã não vai se esclarecer por semanas ou meses. Já Ole Hansen, do Saxo Bank, espera novas máximas dado o momento recente e o pano de fundo estrutural.
A equipe de commodities do JPMorgan, que já havia apontado um salto de 5% a 10% no prêmio de risco antes mesmo deste fim de semana, projeta US$ 5.000 por onça no quarto trimestre de 2026 em seu cenário-base, com US$ 6.000 ou mais como possibilidade caso o conflito se prolongue. O Goldman Sachs elevou sua projeção para o fim de 2026 para US$ 5.400 em janeiro e estima que os bancos centrais comprem cerca de 60 toneladas por mês este ano, segundo o TheStreet. Esse é o caso altista resumido em dois números. O caso baixista é mais simples: se Ormuz reabrir dentro de um mês, o prêmio de guerra evapora e você fica com ouro num patamar onde o ganho no ano já triplica o retorno médio anual de 30 anos, de cerca de 8%.
O Caso Estrutural Que Não Precisa de Bombas
Tire as manchetes da jogada e a história estrutural por trás do ouro não mudou nos últimos três anos — na verdade, ficou mais forte. Bancos centrais compraram 863 toneladas em 2025, segundo o World Gold Council, o quarto maior volume anual já registrado. A Polônia liderou com 102 toneladas, elevando suas reservas a 550 toneladas e mirando publicamente em 700. A China adicionou 27 toneladas nos registros oficiais, mas o Council estima que 57% de todas as compras de bancos centrais no ano passado não foram declaradas — o que significa que a acumulação real foi significativamente maior do que os números divulgados sugerem.
O ouro ultrapassou os Treasuries americanos como o maior ativo de reserva do mundo em valor no fim de 2025. Essa é uma frase que o mercado ainda não absorveu completamente. ETFs globais de ouro registraram influxos recordes de US$ 89 bilhões no ano passado, dobrando o patrimônio sob gestão para US$ 559 bilhões, com as posições atingindo a máxima histórica de 4.025 toneladas, segundo o World Gold Council. O preço quebrou recordes 53 vezes em 2025. Só o SPDR Gold Trust ultrapassou US$ 180 bilhões em AUM durante fevereiro.
Os motores subjacentes — desdolarização, déficits fiscais de US$ 1,8 trilhão anuais só nos EUA e uma coalizão crescente de bancos centrais de mercados emergentes diversificando para longe das reservas em dólar — todos antecedem o conflito com o Irã. A guerra apenas jogou acelerante num incêndio que já estava aceso. Como o complexo de metais preciosos já sinalizava semanas antes do primeiro ataque, ouro, prata e platina já mostravam a mesma demanda estrutural.
Prata e o Problema de Dubai
A prata teve uma das sessões mais violentas dos últimos tempos. O preço à vista superou brevemente US$ 96,40 na segunda-feira antes de desabar até 7% intraday para a faixa alta dos US$ 87, recuperando-se depois para a região de US$ 88 a US$ 94 à tarde. O zigue-zague refletiu a dupla personalidade da prata: metal de porto seguro na subida, commodity industrial na queda — já que os temores de recessão provocados pelo choque do petróleo atingiram as expectativas de demanda manufatureira.
Há um detalhe logístico que está passando despercebido. A Bloomberg informou que os Emirados Árabes Unidos fecharam parcialmente seu espaço aéreo e suspenderam voos de Dubai em resposta aos ataques retaliadores iranianos. Dubai é um nó crítico na cadeia global de suprimento de ouro, roteando barras de Londres para compradores na China e na Índia. O ouro normalmente viaja nos porões de carga de voos comerciais na movimentada rota Londres–Dubai. Um trader disse à Bloomberg que passou a segunda-feira inteira redirecionando remessas originalmente programadas via Dubai. Uma interrupção curta não muda nada. Uma prolongada aperta a disponibilidade física na Ásia justamente no momento em que a demanda está disparando.
O Que Monitorar Agora
Fevereiro marcou o sétimo mês consecutivo de alta do ouro, a maior sequência de ganhos desde 1973, segundo a Bloomberg. O metal acumula valorização de cerca de 85% em relação a um ano atrás. Não são números normais. Refletem um mercado que está reprecificando o ouro como algo mais do que um hedge de crise — mais como um ativo de reserva central num mundo onde a credibilidade soberana se deteriora e o risco geopolítico é reprecificado em tempo real.
No curto prazo, espere volatilidade. O ouro provavelmente se sustenta acima de US$ 5.200 mesmo que surjam manchetes de desescalada. A prata segue como a grande incógnita: potencial de alta maior se a demanda industrial resistir ao choque, quedas mais acentuadas se os temores de recessão se intensificarem. No horizonte mais longo, o mercado precifica a mesma pergunta que vem precificando o ano inteiro: se os governos não conseguem parar de gastar, os bancos centrais não conseguem parar de comprar e as guerras continuam eclodindo na via marítima mais estratégica do mundo, até onde vai o ouro? O cenário-base pré-guerra do JPMorgan era US$ 5.000. O Goldman diz US$ 5.400. Ambos os números parecem conservadores agora. Seu posicionamento provavelmente deveria levar isso em conta.