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Os Estados Unidos realizaram sua primeira cúpula multilateral com chefes de Estado latino-americanos desde o início do segundo governo Trump. Doze países compareceram. Brasil e México, as duas maiores economias da região, não. A Colômbia, peça-chave histórica da estratégia antidrogas americana, também ficou de fora. A lista de ausentes importa mais que a de presentes.
A cúpula “Escudo das Américas”, realizada no Trump National Doral, em Miami, no sábado 7 de março, foi apresentada pela Casa Branca como uma iniciativa de segurança contra os cartéis. Trump assinou uma proclamação criando a Coalizão das Américas contra os Cartéis e instou os líderes presentes a mobilizarem suas forças armadas contra organizações de tráfico de drogas. O secretário de Estado Marco Rubio conduziu um almoço de trabalho. O secretário de Defesa Pete Hegseth participou. Kristi Noem, destituída do cargo de secretária de Segurança Interna dias antes, foi apresentada em uma nova função como Enviada Especial para o Escudo das Américas, de acordo com a transcrição do Departamento de Estado. A lista de participantes, segundo a ABC News, incluiu o presidente argentino Javier Milei, o presidente salvadorenho Nayib Bukele, o presidente equatoriano Daniel Noboa, o presidente panamenho Jose Raul Mulino, o presidente eleito do Chile Jose Antonio Kast e os líderes de Bolívia, Costa Rica, República Dominicana, Guiana, Honduras, Paraguai e Trinidad e Tobago.
O enquadramento de segurança, porém, obscurece a dimensão mais consequente do encontro. Tratou-se do primeiro desdobramento operacional do “Corolário Trump à Doutrina Monroe” — a estratégia de segurança nacional do governo voltada diretamente à redução da influência econômica chinesa no Hemisfério Ocidental. E, por essa métrica, a cúpula expôs tanto a ambição quanto os limites da abordagem de Washington.
O que está em jogo economicamente por trás do discurso de segurança
O comércio da China com a América Latina atingiu o recorde de US$ 518 bilhões em 2024, com Pequim tendo emprestado mais de US$ 120 bilhões a governos do hemisfério, segundo análise pré-cúpula publicada pelo Center for Strategic and International Studies. Esses investimentos produziram uma rede de mais de três dúzias de portos operados por chineses, mais infraestrutura espacial do que qualquer região fora da China continental e a estatal Huawei incorporada em pelo menos uma dúzia de redes de telecomunicações na região. O comércio cresceu mais 7% em 2025, grande parte em setores onde a sobrecapacidade industrial chinesa levantou preocupações com dumping, conforme a mesma avaliação do CSIS.
A contraestratégia do governo Trump, delineada na Estratégia de Segurança Nacional de 2025 e nos acordos comerciais recíprocos já assinados com Argentina, Equador, El Salvador e Guatemala, inclui cláusulas explícitas anti-China. Algumas dessas cláusulas vão além do comércio, abrangendo áreas como cooperação espacial, segundo o CSIS. O governo sinalizou interesse em ampliar o engajamento econômico. O CSIS, em sua análise pré-cúpula, propôs um “Pacto de Infraestrutura das Américas” de US$ 50 a US$ 100 bilhões — uma alternativa americana aos projetos da Iniciativa Cinturão e Rota na região, potencialmente canalizada pela US International Development Finance Corporation para portos, rodovias, redes de energia e telecomunicações.
O problema é de escala. A Argentina ilustra bem essa tensão. O país recebeu um resgate de US$ 20 bilhões dos Estados Unidos, mas, como Benjamin Gedan do Wilson Center disse à NPR, “não dá para simplesmente fazer a China desaparecer”. A China continua sendo uma das maiores fontes de capital para a região e uma das compradoras mais importantes de commodities. Milei se alinhou ideologicamente a Washington, mas as exportações argentinas de soja ainda fluem majoritariamente para portos chineses. Dependência econômica não respeita alinhamento político.
Quem não estava na sala
As ausências definem as limitações da cúpula com muito mais clareza do que os presentes definem suas ambições. O Brasil, maior economia da região e membro do BRICS com laços cada vez mais estreitos com Pequim, não foi convidado ou optou por não comparecer. O México, segunda maior economia e parceiro comercial mais importante dos Estados Unidos no hemisfério, não estava presente. Trump descreveu o México como “o epicentro da violência dos cartéis” e afirmou que os cartéis estão “comandando o México”, segundo a Associated Press. A Colômbia, sob o governo do presidente de esquerda Gustavo Petro, também ficou de fora.
O encontro surgiu do colapso da 10ª Cúpula das Américas, cancelada no final de 2025 depois que a República Dominicana, sob pressão da Casa Branca, barrou Cuba, Nicarágua e Venezuela. Quando Colômbia e México ameaçaram se retirar em protesto e Trump se recusou a confirmar presença, a República Dominicana adiou o evento, citando “profundas divergências” na região, segundo a AP. O Escudo das Américas foi montado com o que restou: uma coalizão de governos de direita dispostos a se alinhar com Washington em segurança e, implicitamente, em distanciamento de Pequim. Notavelmente, o próprio Trump não mencionou a China em seu discurso, segundo a AP, mesmo que a arquitetura anti-China que sustenta a iniciativa continue sendo sua dimensão política mais significativa.
O CSIS observou que a lista de participantes pode se ampliar caso as próximas eleições na Colômbia e no Peru produzam governos de direita, e que futuras edições poderiam incluir o Brasil. Mas, no momento, a cúpula representa uma minoria do produto econômico latino-americano. Sem Brasil e México, a alavancagem econômica da coalizão é limitada. A estratégia anti-China exige a cooperação justamente dos países que não estavam na sala.
O momento e o recado
A cúpula aconteceu uma semana após o início da guerra EUA-Israel contra o Irã. Trump abriu seu discurso falando sobre o conflito, dizendo aos líderes presentes que “enormes progressos” haviam sido feitos, segundo a ABC News. Em seguida, partiu para a Base Aérea de Dover para a cerimônia de recepção dos restos mortais de seis soldados americanos mortos no Kuwait. A justaposição não passou despercebida na região. Franco Ordoñez, da NPR, lembrou que Trump cancelou sua participação na Cúpula das Américas de 2018 por causa de uma crise na Síria — movimento amplamente interpretado como evidência da falta de interesse sustentado do governo no hemisfério.
O sinal econômico é ambíguo. O governo está oferecendo incentivos reais: acordos comerciais com cláusulas anti-China, potencial financiamento de infraestrutura via DFC, marcos de cooperação militar e atenção diplomática que líderes latino-americanos raramente recebem de um presidente americano. A complicação está no timing. Washington está simultaneamente travando uma guerra no Oriente Médio que empurrou os preços globais do petróleo acima de US$ 90, elevou os custos de energia para cada economia importadora de petróleo no hemisfério e criou exatamente o tipo de instabilidade macroeconômica que empurra nações em desenvolvimento para o parceiro que oferece mais capital com menos condições. Esse parceiro, historicamente, tem sido a China.
Cuba, que Trump disse estar “em seus últimos suspiros de vida”, não tem dinheiro, não tem petróleo e tem opções limitadas. Mas para as economias maiores da região, a escolha entre Washington e Pequim não é ideológica — é transacional. Enquanto a China continuar sendo a maior compradora de soja brasileira, lítio argentino e cobre chileno, nenhuma cúpula de segurança em Miami vai alterar fundamentalmente essa equação. A Doutrina Monroe, em qualquer versão, exige uma oferta econômica à altura da ambição estratégica. Se o Corolário Trump será capaz de entregar isso continua sendo a grande questão em aberto do hemisfério.