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Na sexta-feira, a Nasdaq promoveu pela primeira vez na história um toque duplo do sino de abertura: executivos no pregão da Times Square e Elon Musk atrás de um púlpito com a marca Nasdaq em Starbase, no Texas. Horas depois, o SPCX ainda não havia registrado uma única negociação oficial. Em uma corretora de derivativos cripto, porém, já vinha sendo negociado a manhã inteira.
Essa inversão — o preço chegando antes do mercado que deveria defini-lo — é o aspecto mais interessante da maior oferta pública inicial já concluída. E quase ninguém está falando disso.
O Maior IPO da História, Por Múltiplos
Comecemos pelos números de manchete, porque são genuinamente sem precedentes. A SpaceX precificou 555,6 milhões de ações a US$ 135 na noite de quinta-feira, levantando US$ 75 bilhões e avaliando a empresa em cerca de US$ 1,78 trilhão, segundo o comunicado da companhia. Isso não apenas supera o recorde de cerca de US$ 29 bilhões da Saudi Aramco em 2019: multiplica esse número por duas vezes e meia. Os coordenadores detêm um greenshoe de aproximadamente 83 milhões de ações adicionais, no valor de cerca de US$ 11,2 bilhões caso a demanda exija, segundo o Yahoo Finance — e a demanda aparentemente exige: o livro de ofertas ficou mais de três vezes sobrescrito, com a Reuters apontando que só as ordens de varejo chegaram perto de US$ 70 bilhões, ante uma alocação esperada de 20% para o varejo.
Para colocar isso em contexto: todos os 71 IPOs concluídos em 2026 antes deste levantaram US$ 35,7 bilhões somados, segundo a contagem da Kiplinger. A SpaceX levantou mais que o dobro de todo o mercado de IPOs do ano em uma única noite.
O que os investidores estão comprando já não é apenas uma empresa de foguetes. Desde que absorveu a xAI de Musk em fevereiro, a SpaceX virou um conglomerado que abrange lançamentos, a rede de satélites Starlink, a plataforma social X e o negócio de IA Grok, e seus registros afirmam uma oportunidade de mercado acima de US$ 28 trilhões. Van Ha Trinh, analista de mercados da Exness, observa que 90% desse número é atribuído apenas à xAI. Vale guardar esse detalhe, porque, como notou a CNN em sua cobertura de estreia, a Starlink continua sendo a única divisão que de fato dá lucro. Musk mantém cerca de 42% da empresa, razão pela qual um aftermarket forte poderia, de forma plausível, torná-lo o primeiro trilionário.
O Preço Que Já Era Negociado Antes do Preço
Enquanto a mesa de estabilização do Morgan Stanley passava a manhã de sexta movendo indicações de US$ 169 para US$ 165 e de volta na direção de US$ 175, um mercado paralelo já havia resolvido a questão. O contrato de futuros perpétuos SPCX-USDC na Hyperliquid era negociado em torno de US$ 176 no início da sexta-feira, cerca de 30% acima do preço do IPO, antes de recuar rumo a US$ 172, segundo a CNBC. Os traders de cripto não estavam esperando a descoberta de preço da Nasdaq. Estavam se antecipando a ela, com alavancagem, em um ambiente offshore que nunca fecha.
Isso está virando padrão, não curiosidade. Os mercados de previsão e de cripto precificaram os ataques ao Irã antes de os mísseis voarem, algo que documentamos quando seis carteiras ganharam um milhão de dólares na Polymarket antes da primeira explosão. E é o desfecho de um cenário que sinalizamos na segunda-feira, quando escrevemos sobre a armadilha dos proxies que se formava em torno da exposição pré-IPO à SpaceX. A armadilha não se fechou como os detentores de proxies esperavam. A EchoStar, que detém uma fatia estimada em 3% da SpaceX, saltou 11% na quinta-feira, com volume de opções rodando onze vezes a média de 30 dias, segundo dados da Cboe LiveVol, e somou outros 5% no pré-mercado de sexta. A AST SpaceMobile subiu 12%, acompanhada de quase US$ 140 milhões em negociações de opções. Os proxies seguem inflando rumo à listagem, em vez de desinflar a partir dela — o que mostra que o comprador marginal não acredita que a história termine no primeiro pregão.
Os Céticos Têm um Número, e Ele é US$ 63
A Morningstar publicou a pesquisa mais incômoda de Wall Street nesta semana: uma estimativa de valor justo de US$ 63 por ação, um desconto de 53% sobre o preço do IPO antes mesmo de a primeira negociação acontecer. O estrategista-chefe de ações Michael Field classificou a avaliação como “extremamente especulativa” em declaração à ABC News, reconhecendo a força real da Starlink, mas argumentando que boa parte do preço se apoia em tecnologias desconhecidas e não testadas, sobretudo dentro do negócio de IA.
Se as indicações se mantiverem perto de US$ 170, o mercado está pagando quase três vezes a estimativa da Morningstar para o que o negócio realmente vale. A história oferece pouco conforto. A CBS News revisou estreias estrondosas do passado às vésperas da sexta-feira e encontrou o arco familiar: um pico violento na abertura, seguido pela gravidade.
O setor de IA tem seu próprio alerta recente. A Broadcom entregou um resultado acima das expectativas na semana passada e o trade de IA asiático despencou mesmo assim, e com força. Quando o posicionamento está tão lotado, boas notícias deixam de ser suficientes. A SpaceX é agora a maior expressão isolada desse posicionamento nos mercados públicos.
Todo Mundo Vai Ter de Qualquer Jeito
É aqui que a máquina regulatória pesa mais do que o livro de ofertas. A SpaceX fez lobby junto aos dois principais provedores de índices por inclusão acelerada, com resultados mistos. A Nasdaq mudou suas regras no início de maio para que listagens de mega-cap possam entrar no Nasdaq-100 após apenas 15 pregões, segundo reportagem da Al Jazeera, colocando o SPCX no caminho para entrar no índice no início de julho. Já a S&P Dow Jones Indices recusou-se a flexibilizar, mantendo a exigência de quatro trimestres de lucratividade para o S&P 500.
A consequência é que o dinheiro passivo começa a comprar em um cronograma, independentemente do preço. O tesoureiro da Carolina do Norte, Brad Briner, disse à CNBC que o fundo de pensão estadual de professores, bombeiros e policiais não fará uma posição direta porque a oferta está cara demais — para depois reconhecer ele mesmo a ironia: “No fim das contas, vamos participar da SpaceX por meio de nossas posições em índices em nossa carteira de ações públicas.” Quem tem um fundo atrelado ao Nasdaq-100 em uma conta de aposentadoria está a semanas de possuir uma fatia de uma empresa que uma casa de pesquisa estabelecida avalia em um terço de seu preço de mercado. Não por escolha. Por construção.
O free float deixa a mecânica ainda mais nítida. Diante de aproximadamente 13 bilhões de ações implícitas na avaliação de US$ 1,78 trilhão, os 555,6 milhões vendidos representam pouco mais de 4% da empresa, perto de 5% com o greenshoe. Fundos de índice obrigados a comprar uma fração do free float de uma ação que todo mundo já possui sinteticamente — é assim que se obtém movimentos de preço sem qualquer relação com a planilha da Morningstar, em qualquer direção.
O Que o Primeiro Pregão de Fato Decide
A abertura de sexta resolve o direito de se gabar, não o debate. O debate chega em três partes: a janela de inclusão no Nasdaq-100 em julho, os vencimentos de lockup por trás daquele free float de 4% e os dois registros parados na SEC atrás deste, porque tanto a OpenAI quanto a Anthropic já iniciaram a papelada para suas próprias listagens ainda neste ano, segundo a NPR. A SpaceX é a prova de conceito de saber se os mercados públicos vão financiar a expansão de IA a preços de mercado privado.
Vale notar de onde veio a energia especulativa. O Bitcoin passou a semana lutando para voltar acima de US$ 63.000, cerca de metade de seu pico de outubro, enquanto traders nativos de cripto pagavam pela ação de Musk 30% acima do preço de emissão em futuros perpétuos. O apetite por risco nunca deixou o sistema. Apenas trocou de ticker. O mercado está dizendo em que quer acreditar a seguir e, na sexta-feira, pagou um recorde de US$ 75 bilhões pelo privilégio.