O IPO de US$ 75 Bilhões da SpaceX Já Era Negociado Antes de a Nasdaq Abrir

Share

Reading time: 7 min

Na sexta-feira, a Nasdaq promoveu pela primeira vez na história um toque duplo do sino de abertura: executivos no pregão da Times Square e Elon Musk atrás de um púlpito com a marca Nasdaq em Starbase, no Texas. Horas depois, o SPCX ainda não havia registrado uma única negociação oficial. Em uma corretora de derivativos cripto, porém, já vinha sendo negociado a manhã inteira.

Essa inversão — o preço chegando antes do mercado que deveria defini-lo — é o aspecto mais interessante da maior oferta pública inicial já concluída. E quase ninguém está falando disso.

O Maior IPO da História, Por Múltiplos

Comecemos pelos números de manchete, porque são genuinamente sem precedentes. A SpaceX precificou 555,6 milhões de ações a US$ 135 na noite de quinta-feira, levantando US$ 75 bilhões e avaliando a empresa em cerca de US$ 1,78 trilhão, segundo o comunicado da companhia. Isso não apenas supera o recorde de cerca de US$ 29 bilhões da Saudi Aramco em 2019: multiplica esse número por duas vezes e meia. Os coordenadores detêm um greenshoe de aproximadamente 83 milhões de ações adicionais, no valor de cerca de US$ 11,2 bilhões caso a demanda exija, segundo o Yahoo Finance — e a demanda aparentemente exige: o livro de ofertas ficou mais de três vezes sobrescrito, com a Reuters apontando que só as ordens de varejo chegaram perto de US$ 70 bilhões, ante uma alocação esperada de 20% para o varejo.

Para colocar isso em contexto: todos os 71 IPOs concluídos em 2026 antes deste levantaram US$ 35,7 bilhões somados, segundo a contagem da Kiplinger. A SpaceX levantou mais que o dobro de todo o mercado de IPOs do ano em uma única noite.

O que os investidores estão comprando já não é apenas uma empresa de foguetes. Desde que absorveu a xAI de Musk em fevereiro, a SpaceX virou um conglomerado que abrange lançamentos, a rede de satélites Starlink, a plataforma social X e o negócio de IA Grok, e seus registros afirmam uma oportunidade de mercado acima de US$ 28 trilhões. Van Ha Trinh, analista de mercados da Exness, observa que 90% desse número é atribuído apenas à xAI. Vale guardar esse detalhe, porque, como notou a CNN em sua cobertura de estreia, a Starlink continua sendo a única divisão que de fato dá lucro. Musk mantém cerca de 42% da empresa, razão pela qual um aftermarket forte poderia, de forma plausível, torná-lo o primeiro trilionário.

O Preço Que Já Era Negociado Antes do Preço

Enquanto a mesa de estabilização do Morgan Stanley passava a manhã de sexta movendo indicações de US$ 169 para US$ 165 e de volta na direção de US$ 175, um mercado paralelo já havia resolvido a questão. O contrato de futuros perpétuos SPCX-USDC na Hyperliquid era negociado em torno de US$ 176 no início da sexta-feira, cerca de 30% acima do preço do IPO, antes de recuar rumo a US$ 172, segundo a CNBC. Os traders de cripto não estavam esperando a descoberta de preço da Nasdaq. Estavam se antecipando a ela, com alavancagem, em um ambiente offshore que nunca fecha.

Isso está virando padrão, não curiosidade. Os mercados de previsão e de cripto precificaram os ataques ao Irã antes de os mísseis voarem, algo que documentamos quando seis carteiras ganharam um milhão de dólares na Polymarket antes da primeira explosão. E é o desfecho de um cenário que sinalizamos na segunda-feira, quando escrevemos sobre a armadilha dos proxies que se formava em torno da exposição pré-IPO à SpaceX. A armadilha não se fechou como os detentores de proxies esperavam. A EchoStar, que detém uma fatia estimada em 3% da SpaceX, saltou 11% na quinta-feira, com volume de opções rodando onze vezes a média de 30 dias, segundo dados da Cboe LiveVol, e somou outros 5% no pré-mercado de sexta. A AST SpaceMobile subiu 12%, acompanhada de quase US$ 140 milhões em negociações de opções. Os proxies seguem inflando rumo à listagem, em vez de desinflar a partir dela — o que mostra que o comprador marginal não acredita que a história termine no primeiro pregão.

Os Céticos Têm um Número, e Ele é US$ 63

A Morningstar publicou a pesquisa mais incômoda de Wall Street nesta semana: uma estimativa de valor justo de US$ 63 por ação, um desconto de 53% sobre o preço do IPO antes mesmo de a primeira negociação acontecer. O estrategista-chefe de ações Michael Field classificou a avaliação como “extremamente especulativa” em declaração à ABC News, reconhecendo a força real da Starlink, mas argumentando que boa parte do preço se apoia em tecnologias desconhecidas e não testadas, sobretudo dentro do negócio de IA.

Se as indicações se mantiverem perto de US$ 170, o mercado está pagando quase três vezes a estimativa da Morningstar para o que o negócio realmente vale. A história oferece pouco conforto. A CBS News revisou estreias estrondosas do passado às vésperas da sexta-feira e encontrou o arco familiar: um pico violento na abertura, seguido pela gravidade.

O setor de IA tem seu próprio alerta recente. A Broadcom entregou um resultado acima das expectativas na semana passada e o trade de IA asiático despencou mesmo assim, e com força. Quando o posicionamento está tão lotado, boas notícias deixam de ser suficientes. A SpaceX é agora a maior expressão isolada desse posicionamento nos mercados públicos.

Todo Mundo Vai Ter de Qualquer Jeito

É aqui que a máquina regulatória pesa mais do que o livro de ofertas. A SpaceX fez lobby junto aos dois principais provedores de índices por inclusão acelerada, com resultados mistos. A Nasdaq mudou suas regras no início de maio para que listagens de mega-cap possam entrar no Nasdaq-100 após apenas 15 pregões, segundo reportagem da Al Jazeera, colocando o SPCX no caminho para entrar no índice no início de julho. Já a S&P Dow Jones Indices recusou-se a flexibilizar, mantendo a exigência de quatro trimestres de lucratividade para o S&P 500.

A consequência é que o dinheiro passivo começa a comprar em um cronograma, independentemente do preço. O tesoureiro da Carolina do Norte, Brad Briner, disse à CNBC que o fundo de pensão estadual de professores, bombeiros e policiais não fará uma posição direta porque a oferta está cara demais — para depois reconhecer ele mesmo a ironia: “No fim das contas, vamos participar da SpaceX por meio de nossas posições em índices em nossa carteira de ações públicas.” Quem tem um fundo atrelado ao Nasdaq-100 em uma conta de aposentadoria está a semanas de possuir uma fatia de uma empresa que uma casa de pesquisa estabelecida avalia em um terço de seu preço de mercado. Não por escolha. Por construção.

O free float deixa a mecânica ainda mais nítida. Diante de aproximadamente 13 bilhões de ações implícitas na avaliação de US$ 1,78 trilhão, os 555,6 milhões vendidos representam pouco mais de 4% da empresa, perto de 5% com o greenshoe. Fundos de índice obrigados a comprar uma fração do free float de uma ação que todo mundo já possui sinteticamente — é assim que se obtém movimentos de preço sem qualquer relação com a planilha da Morningstar, em qualquer direção.

O Que o Primeiro Pregão de Fato Decide

A abertura de sexta resolve o direito de se gabar, não o debate. O debate chega em três partes: a janela de inclusão no Nasdaq-100 em julho, os vencimentos de lockup por trás daquele free float de 4% e os dois registros parados na SEC atrás deste, porque tanto a OpenAI quanto a Anthropic já iniciaram a papelada para suas próprias listagens ainda neste ano, segundo a NPR. A SpaceX é a prova de conceito de saber se os mercados públicos vão financiar a expansão de IA a preços de mercado privado.

Vale notar de onde veio a energia especulativa. O Bitcoin passou a semana lutando para voltar acima de US$ 63.000, cerca de metade de seu pico de outubro, enquanto traders nativos de cripto pagavam pela ação de Musk 30% acima do preço de emissão em futuros perpétuos. O apetite por risco nunca deixou o sistema. Apenas trocou de ticker. O mercado está dizendo em que quer acreditar a seguir e, na sexta-feira, pagou um recorde de US$ 75 bilhões pelo privilégio.

Disclaimer: Finonity provides financial news and market analysis for informational purposes only. Nothing published on this site constitutes investment advice, a recommendation, or an offer to buy or sell any securities or financial instruments. Past performance is not indicative of future results. Always consult a qualified financial advisor before making investment decisions.
Mark Cullen
Mark Cullen
Senior Stocks Analyst — Mark Cullen is a Senior Stocks Analyst at Finonity covering global equity markets, corporate earnings, and IPO activity. A London-based professional with over 20 years of experience in communications and operations across financial, government, and institutional environments, Mark has worked with organisations including the City of London Corporation, LCH, and the UK's Department for Business, Energy and Industrial Strategy. His extensive background in strategic communications, market research, and stakeholder management — including coordinating financial services partnerships during COP26's Green Horizon Summit — informs his ability to distill complex market dynamics into clear, accessible analysis for investors.
Nexus

Read more

Latest News